sábado, julho 09, 2005

O que se aprende ao transcrever um poema de Ruy Belo

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei - ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

...

Lisboa, 2001
Foto: Vasco Gil
...

6 comentários:

Triologia do Zum zUm zuM disse...

Quase que parece o pequeno anuncio à PT…

Fora de brincadeiras, muito real. Na nossa casa, rica ou pobre, vivemos tudo e assimilamos todos os momentos, alegres ou não, pelos quais passamos. É o nosso mundo.

Beijos

Segundo zUm

Isabel Magalhães disse...

Ruy Belo... um dos meus POETAS! :)

Polly Jean disse...

As casas, as casas que aconchegam e abraçam as nossas almas. Paredes cruas plenas de afectos, esconderijos de beijos e desabafos. As casas.

Rapariga Misteriosa disse...

com esta foto super bonita ate me apetece cantar: "...deixa-te ficar na minha casa ha janelas que tu nao abriste..." ("...eras capaz? - podes tentar...")
beijocas
Rapariga Misteriosa

um estranho disse...

As "casas" não representam apenas o nosso lar. Acabei de perder uma janela na casa onde passo a maior parte da minha vida (mentira?).

Uma janela que me tirou, de repente, tudo o que eu tinha de melhor.

Agora tenho outra janela, virada para o transito infernal, para o cheiro de cidade poluida e estou a sufocar.

É como se tivesse perdido a minha "casa"

Alex disse...

Bem dito o dia em que entraste nas nossas casas. O teu coração é MAIOR que tu. Não te cabe no corpo. Olha, João Gil, que tenhas sempre muita sorte. TU e os TEUS. Muita, muita sorte.
É o que te desejo!