terça-feira, setembro 06, 2005

Contem-me histórias

Hoje, seriam para aí umas seis e meia da tarde, num dos restaurantes irresistíveis da praia do Martinhal.
É um pouco indecoroso, reconheço, falta de gosto até, mas... estava aqui o vosso amigo a saborear
uma série de percebes com aspecto antigo, na companhia de uma taça de branquinho gelado, pés assentes na madeira rugosa e envelhecida, vento confortável fustigando o pensamento..., observando o mundo visto dali.
Como vocês, meus caros, não se encontravam por ali perto, deu justamente para pensar em todos vós,
A ansiedade de partilha também faz evitar qualquer ideia de solidão. O que por sua vez me afasta de alguns tipos de voluntariado, mais para receber do que para dar.
Aí têm:
Este postal magnífico, a somar ao file dos momentos de prazer,
Vá!
Digam vossas distintíssimas pessoas que se comunicam como vasos, em busca do entendimento.
Vá digam-me.
Alguma vez beberam um sumo de tangerina, na praça de Marraquexe, junto à medina, debaixo de um toldo,
protegido da chuva repentina e copiosa, e, no ar, o ainda cheiro a gasóleo do espremedor?
Já??
Vá!!

Fico à escuta.

Contem-me histórias.

É a vossa vez.



Vasco Gil

11 comentários:

um estranho disse...

Eu contei. Contei uma historia linda sobre o instinto da eternidade...

Adoro historias. Gosto especialmente de as inventar substituindo as historias dos livros que já viajam de gerações em gerações.

Mas as historias reais têm outro sabor.

Ana disse...

Uma história... tantas que em apenas 1 segundo me passam pela cabeça. Umas por serem engraçadas, outras por serem tristes, outras por serem bonitas...
Vou contar uma bonita, pelo menos para mim...!

Não sei se é por estar no fim do verão mas lembro-me, do ano passado por esta altura, talvez mais para o mês de outubro ter passado um momento daqueles em que só tive pena de não ter uma máquina fotográfica comigo.

Estava eu na Lagoa de Sto. André (local que é o meu refúgio no alentejo, pela calma q se vive por lá, de verão e de inverno), estendida na praia. Estava sozinha, a praia estava deserta. Eu gosto de estar sozinha, gosto de ter o meu tempo, o meu espaço, os meus momentos. Prefiro estar só do que ter... como tu bem dizes "alguns tipos de voluntariado".
Bem, voltando à história.
Estava uma tarde de principio de outono, sem chuva, sem frio, e com um céu totalmente limpo. Levei um livro para a praia e ali fiquei estendida a ver o magnifico por do sol. De repente, olho para o lado e vejo uma série de "gaivotas anãs" (uma espécie protegida que existe naquela zona) quase ao pé de mim. Para meu espanto, quando olho bem vejo que iam em linha recta, a mãe gaivota e quatro filhotes pequeninos que seguiam atentamente os passos da sua mamã. Foi uma imagem linda que me ficou na cabeça. Pode parecer estúpido, mas... ficou na minha cabeça.
Porque neste mundo existe tanto ódio, tanto rancor, tantas mães que abandonam os seus filhos, tantos filhos que abandonam os seus pais, tantas pessoas que tratam mal e magoam outras, e aqueles animais pequeninos e frágeis, ali andavam, em linha, a seguir atentamente os passos da sua mãe.

Fiquei a admirar esta imagem com o por do sol ao fundo o som das ondas e o cheiro do mar...
Depois voltei para casa a pensar... ainda existem pequenas coisas, pequeno nadas... os nossos postais... que parecem insignificantes, mas que por momentos nos fazem sorrir, nos fazem sentir ternura...

anocasoliveira disse...

"Que os nossos sonhos não sejam como as ondas do mar que morrem ao chegar à terra..."
Anocas

anocasoliveira disse...

Histórias são também aquelas que eu oiço, com muita atenção, todos os dias... as dos idosos do Lar onde exerço funções de Directora Técnica. Elas são muitas vezes as peças que completam os puzzels da minha vida.Anocas

Bárbara Vale-Frias disse...

Histórias? Pois tenho tantas engraçadas lá no Sublimações (http://cokas.blogspot.com). Tenho uma fantástica, logo a primeira de todas, acerca de um negócio que fechei numa picada de Moçambique... também à chuva. Ou quase. Espreita. Acho que vais gostar.

Bárbara Vale-Frias disse...

Não resisto a deixar aqui este que, talvez, abra o apetite para uma dezena de outras ;)

Quarto na Linha do Equador
(Quinta-feira, Abril 21, 2005)

Após um ensaio – ou remake – de bom sexo, nada melhor do que um cigarro a consumir-se em longos e preguiçosos travos, que levam a amálgama de veneno e bem-estar ao mais fundo dos pulmões e da alma. Esse é o cliché a que muitos recorrem para expressar a satisfação após o prazer, a continuidade de um gozo efémero, condenado que está a finar-se no exacto momento em que se liberta, e sempre me suscitou uma mistura de curiosidade e entejo. Porém, a minha perpetuação das delícias sexuais não passa por aspirar languidamente oito centímetros de nicotina e alcatrão.

Descobri, no outro dia, depois de ser despertada por uns minutos magníficos de sexo, que a volúpia desses fugazes instantes, suspensos na eternidade da memória, pode perdurar numa intoxicação muito mais saudável, ainda que sôfrega. Estava eu ali, prostrada no meu parceiro específico, já despojada e desabitada, as mãos húmidas, os dedos entrelaçados, a respiração a tentar reencontrar o seu ritmo, o suor a evaporar-se no ar quente que embaciava os vidros das janelas, quando, de repente, o olhar acompanhou o movimento da cabeça e detiveram-se ambos na mesa-de-cabeceira. No meio de alguns acessórios de invocação a Eros e a Psique, adquiridos na Ann Summers da Brewer Street, lá estava ele, deitado, sossegado, testemunha dos nossos arrojados movimentos, dos nossos inebriantes gemidos, da nossa linguagem livre de amantes vorazes. E, num ímpeto, veio aquele desejo imoderado de mergulhar no Equador, de devorar mais cinquenta páginas de uma assentada. E foi o que fiz. Estendi o braço e resgatei o “Luís Bernardo”, conduzindo-o até junto do meu peito, já estrategicamente coberto com uma ponta do lençol, amarrotada e húmida.

Desde então, as minhas exigências literárias lascivas aumentaram e os livros aos quais permito entrada no quarto têm de estar à altura do meu companheiro e da partilha de afectos. Porque o erotismo contagia e é contagiado, numa espiral de captura perfeita.

um estranho disse...

Uma história.
Esta história todos nós conhecemos mas nunca é demais relembrá-la. Aqui fica a minha história.

...E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...

Antoine de Saint Exuperry
Em "O Principezinho"


Parar para pensar
e re-aprender a viver sem egoismo.

UnaRagazza disse...

Estou a descobrir e adorar o teu blog...
Bjs*

soniaq disse...

Vivi 2 anos num hotel que se debruçava na praia, onde o tempo estava parado, fui imensamente feliz naquele tempo incerto e estranho.
Este hotel não tinha lençóis suficientes para fazer as camas de novo todos os dias, tinha que lavar os lençóis na banheira e isso quando havia água, a casa de banho estava repleta de garrafas de água, era o nosso stock, a varanda servia para tudo, era larga e aí penduravamos as roupas, comiamos quitetas (tipo cadelinhas), bebiamos com os nossos amigos e jogavamos às cartas e xadrez. O nosso companheiro era o rádio, a televisão servia para rever filmes antigos e o Blade Runner.
Foi um tempo repleto de histórias, de companheiros para a vida, de muitas lições.
Passou-se em Angola em 1994.

beijoca
sona

Mariana disse...

Queres uma história ou uma estória? :)

Mariana Matos disse...

"vem guardar nestas rimas
meu canto vadio
minha galera de sonhos,de inquietações
viageira de um fado
oculto e sombrio
torna-viagem no mar das canções

se as palavras se cansam no tempo
este fogo não deixa de arder
se as canções incendeiam a praia
esta noite não hei-de morrer (...)"
"Torna-Viagem". Zeca Medeiros

Cá está uma estória. :)...do grande Zeca Medeiros.