terça-feira, setembro 13, 2005

O B. Leza vai fechar

Eu sei que é tarde, quase 5 da manhã, mas não resisto a deixar aqui, neste preciso momento,
o registo de uma noite absolutamente fabulosa.
Acabo de chegar do B.Leza, estou siderado com a energia que recebi de um povo inteiro, por vozes que vêm
de terras de fogo. O Bana, a Celina, a Ana Firmino, o Tito, o Kanu, o Dani, a Nanci....... O texto sai-me dos dedos...quero lá saber do rigor formal ou literário....
Caguei.
Só queria que soubessem que aquela sala vai encerrar. Vai fechar!
E, isso é muito mau.
É mau demais.
Vou estar atento, ou ajudem-me ...
Se virem alguma coisa escrita num jornal por aí, sobre o que aconteceu hoje, estou pronto a reconhecer
que tenho andado enganado.
Se, pelo contrário, nada se falar do assunto, terei o direito mais que legítimo em afirmar, alto e bom som,
que os críticos e enfim....pessoas que escrevem sobre música em Portugal,
são merdosos, e acima de tudo, gente ignorante, e muita ocupada nos seus afazeres.
Que me lembre, nunca li nada sobre esta questão.
Alguém ouviu?

Aquela sala vai fechar.
Não me conformo.

12 comentários:

um estranho disse...

"Fundado há vários anos pelo Casa Pia Atlético Clube, o B.Leza mantém um estatuto especial nas noites lisboetas. É um misto de café-concerto africano, bar dançante e clube de convívio, a que se junta o charme próprio do palacete do século XVII em que se encontra albergado, na zona de Santos, em Lisboa.
Apesar das numerosas ventoinhas a funcionar, o ambiente do B.leza é sempre quente e acolhedor. Envoltos nas paredes vermelhas e coçadas pelo tempo, iluminação de cabaret e cortinas escuras, os corpos bamboleiam-se inebriados ao ritmo da coladeira, da kizonba e do funana, danças típicas de Cabo Verde. É um local desinibido e sensual, onde ninguém escapa a um convite para dançar mesmo que não tenha trazido par. É esse um dos encantos do B.leza, os pares constituem-se no momento, dançam uma música, agradecem e partem à procura de outro interessado em soltar as energias quinéticas que o local transmite.
Mas quem não gosta de dar ao pé, pode gozar com os olhos ou sair da sala de dança e explorar os corredores e escadarias do palácio. Há ainda uma sala de convívio mais recatada e propícia à conversa e onde porventura dormem os espíritos dos aristocratas que no século XVII frequentavam o palacete. Há mesmo quem diga que o B.leza funcionava como o salão nobre de música do Marquês de Pombal. Se é ou não verdade, pouco importa, é mais um elemento a juntar à magia do local.

Aberto todas as noites, excepto à segunda-feira, o B.leza distingue-se da maioria das discotecas africanas por ter sempre um grupo a tocar ao vivo. Os ritmos de Cabo Verde prevalecem porque "há mais músicos cabo-verdianos em Lisboa", afirma Alcides Gonçalves, um dos responsáveis pela secção cultural do Casa Pia. "Mas tentamos que seja um espaço lusófono." A peculiaridade do B.leza reside, segundo Alcides Gonçalves, na combinação de dois elementos. "A música ao vivo cria momentos onde aparece a festa. Por outro lado, há um ambiente de mistura cultural entre africanos portugueses e estrangeiros."

Fonte: Publico

Não ouvi nada sobre encerramentos... se for verdade, é apenas mais um a sair de cena, a juntar às tantas coisas que nos ficaram de referencia, as salas de teatro tambem fecham, os velhos cinemas que nos ficam pela memoria dos GRANDES filmes da nossa juventude tambem fecharam, alguém anda a carregar demais nos botões de "implosões"

um estranho disse...

Há palcos especiais

Bárbara Vale-Frias disse...

Fui apenas duas vezes ao B-Leza. O meu namorado da altura tinha um grande amigo natural de São Tomé, que havia sido seu colega nos tempos de faculdade. Então, levaram-me lá. Achei um espaço muito interessante e gostei da experiência mas, confesso, não me rendi ao B-Leza. Porquê? Não sei... acho que foi mesmo o espaço físico em si. Não tinha a ver comigo.

Mas se acabou, lamento-o profundamente.

Bárbara Vale-Frias disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
muguele disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
muguele disse...

Em relação à critica de música em geral, escervi ontem no meu blog algo que poderás querer comentar. Apropriando-me do adjectivo usado neste "post" coloquei hoje uma pérola do mais merdoso que se pode ler na imprensa portuguesa. Passa por lá, se quiseres.
Quanto ao B-Leza, não conheço mas tenho amigos que frequentam e gostam bastante. Como quem faz mal aos meus amigos o faz a mim, junto-me desde já ao protesto!

Dungo disse...

é absolutamnete vergonhoso. Estou de corpo e alma neste protesto! Infelizmente é só mais uma estúpidez no meio de tantas...

muguele disse...

"Alto e bom som havia a raiva de rir" (Francisco Viana)

Ainda há, não há?

Nuno disse...

Um abraço solidário e nostálgico de alguém que em Abril de 1998 conversou contigo no B.Leza, depois de mais um mágico concerto da Ala.

::mari:: disse...

Acho dificil acreditar que o Bleza tenha fechado. Passei lá momentos muito bons... diria até inesquecíveis. Apesar de não ir já algum tempo, é um dos lugares onde me sinto melhor, não apenas por me sentir "num pedacinho da minha terra", mas pelo ambiente, pela música, por tudo!

Fico triste por saber que acabou.

Resta-nos "O Enclave" que apesar de ser um espaço mais pequeno, também é excelente. Recomendo vivamente.

NUNO FERREIRA disse...

B.LEZA BLUES
Uma das salas mais emblemáticas da Lisboa multicultural e multi-étnica corre o risco de fechar em breve. O prazo acordado entre a empresa proprietária do palácio do Largo do Conde Barão onde se encontra instalado o B.Leza e o locatário do mesmo , o Casa Pia Atlético Clube, já expirou. O espaço de música cabo-verdeana só se mantem aberto até o clube conseguir “um espaço digno” para colocar o espólio da sua biblioteca-museu, ainda nas instalações.
A crise do B. Leza começou em 2001 quando a empresa proprietária do espaço accionou em tribunal uma acção de despejo ao Casa Pia Atlético Clube que o sub-aluga aos gerentes do B.Leza. A acção de despejo foi contestada e as duas partes acabaram por chegar a um acordo: O Casa Pia Atlético Clube saía até 31 de Agosto de 2005, sofrendo penalização pelo tempo a mais que permanecer no local.
“Neste momento, estamos a ser penalizados. Só não saímos porque ainda não encontrámos um espaço digno para colocar a nossa biblioteca-museu. Esse é o meu grande problema neste momento”, explicou o presidente do clube, Carlos Rodrigues.
O presidente do Casa Pia Atlético Clube confessa que vai saír daquele palácio de “lágrimas nos olhos”- o clube está ali instalado desde 1920- e que tem pena pelo B.Leza mas não pode fazer nada: “Adoro o B.Leza, sou frequentador, acho aquele espaço o ideal para o clube funcionar mas a vida é assim. Acho que os gerentes são pessoas excepcionais e que vão conseguir outro lugar para o clube”. Carlos Rodrigues escusou-se, no entanto, a dizer quando é que o Casa Pia abandona as instalações.
O clube de música africana mas sobretudo cabo-verdeana, onde ainda na segunda-feira, dia 12, cantaram nomes como Tito Paris, Celina Pereira, Dany Silva, Nancy Vieira ou Maria Alice, tem programação agendada para Setembro e Outubro.
“ Nós gostaríamos de continuar”, explicou uma das gerentes, entre as arcadas do velho Palácio dos Almadas. “É um projecto válido, com muito valor, com destaque na noite lisboeta, multicultural. Não sabemos se fora deste espaço seria possível manter o mesmo projecto”.
Na segunda-feira passada, o B.Leza recebeu uma noite única de música cabo-verdeana que esgotou a lotação e enquanto houve pessoas que se deslocaram ao local convencidos que aquela era a última noite do clube, outros frequentadores nem sabiam que este pode fechar. “Eu não sabia”, dizia uma cliente habitual, “ e sinceramente tudo isto é muito triste. Se este espaço fechar, não existem alternativas. Não há nada parecido com isto”.
Sentado a uma mesa, acompanhado por elementos do seu staff e da esposa, Bárbara Guimarães, o candidato do Partido Socialista à câmara de Lisboa, Manuel Maria Carrilho não queria ouvir falar na possibilidade do clube fechar: “Comigo o B.Leza será sempre o local de Cabo-Verde. Venho muitas vezes aqui e posso dizer que comigo não fecha. É um santuário. Tudo farei para que continue. Lisboa tem de continuar a ser a capital da diversidade”.
Instalado no Palácio do século XVI, monumento nacional, que pertenceu aos Almadas, Provedores da Casa da Índia, o clube é um espaço único desde a arquitectura do páteo interior, das janelas de sacada e das arcadas até à intimidade e convívio cultural na sala e no corredor. As ventoinhas a rodar incessantes a espantar o calor, as gargalhadas de umas mesas para as outras, os versos do compositor cabo-verdeano B.Leza espalhados nas paredes cor de morango, o clube é um mundo à parte.
“Os outros espaços não disfrutam daquela sumptuosidade, daquele tecto infelizmente degradado. O B. Leza é uma sala que permite tanto estar na sala a ouvir a música como estar lá fora no corredor, no páteo. Há uma magia própria naquele clube”, explica a cantora Celina Pereira.
À beleza do espaço, alia-se a partilha cultural. “Quando eu penso no B.Leza, penso num espaço onde se vive, de verdade, a lusofonia. Ali há música africana ao vivo, há lançamentos de livros, exposições de pintura, fotografia, sessões de documentário. Para mim, é um espaço de encontro de culturas, é um emblema”, afirma Celina.
A cantora cabo-verdeana Nancy Vieira, que há três anos foi convidada a cantar todas as terças-feiras, não esquece que foi no B.Leza que ganhou projecção: “É o espaço onde comecei a ser conhecida, que me abriu as portas. Fez-me ter a certeza que queria ser uma cantora profissional”.
O ano que passou a cantar no clube foi de aprendizagem e amadurecimento. “Deram-me uma noite especial, ganhei o público do Tito Paris, que era quem fazia as terças-feiras. Quando comecei a cantar ainda andava na faculdade. O clube deu-me muita prática. Os músicos da Banda do B.Leza são dos melhores músicos que nós temos”, explica.
O músico Tito Paris, que foi sócio do “B.Leza” no seu primeiro ano de actividade, em 1995, tem ali enterradas muitas recordações. Foi ali que gravou o seu disco duplo ao vivo, em 1998, foi ali que tocou todas as semanas durante bastante tempo.
“Fui eu que dei o nome ao espaço. Era para ser chamado B. Leza Morna Jazz. Desenhei o logotipo, dei a cara pelo B.Leza porque era o mais conhecido, ía à rádio, dava entrevistas,
ainda tenho alguns dos três mil cartões de convite que assinei para a inauguração”, explica.
Em relação ao “Baile”, o espaço de música africana que ali existiu de 89 a 95, Tito e os outros sócios efectuaram modificações. “O B.Leza era mais requintado, até o nome era doce. As pessoas encontravam boa música, bom ambiente. Mudámos a decoração, alargámos o palco, mudámos o sistema de luzes, mudámos as cortinas...”
Tito Paris defende que o clube é responsável por revolucionar a música cabo-verdeana: “Conseguiu juntar várias músicos de qualidade no mesmo espaço e as pessoas puderam passar a ir ouvir muitos cantores de renome. A minha ideia era criar um espaço que começasse às 21h00 com um artista e onde só se dançasse a partir da meia noite. Não consegui, os outros sócios não entenderam assim, vim-me embora”.
O cantor e compositor fala do B.Leza, no entanto, como de uma oportunidade perdida: “O projecto podia ser muito bonito mas a verdade é que aquela casa foi abandonada e deixaram degradar o ambiente há muito tempo”
Tito Paris diz que se a casa fosse sua a primeira coisa que fazia era fechar três meses para remodelação. “Depois, criava disciplina de trabalho, fazia mais publicidade, tinha concertos de artistas diferentes todos os dias das 21h00 à meia-noite, servia refeições e só depois das 0h00 é que tocava o grupo da casa”.
Agora, o clube com um futuro incerto, Tito Paris abana a cabeça: “Fico com pena porque se trata de uma referência no espaço lusófono e da música cabo-verdeana. Fico triste por não poder subir mais a um palco que eu ajudei a transformar em 95. Continuo a não acreditar que o B.Leza possa fechar”, afirma.
Nancy Vieira, essa, nem sabe o que dizer: “É uma tristeza. Só de pensar no dia em que nos lembrar-mos de saír à noite e já não tivermos o B.Leza. Aquele sítio é como um íman. Parece que o carro vai sózinho até lá”.

graça martins disse...

Percebo. Quando o Café Concerto ao bairro alto fechou, parecia ter terminado uma época e desaparecido para sempre um espaço com uma cultura própria.
Quando o Noites Longas fechou (para dar depois lugar ao B.Leza) também pareceu um desastre. O mesmo sentimento. E na verdade todos estes espaços-vidas-ambientes morreram, acabaram. Mas em ambos os casos (e o B.Leza não será excepção), qual flor que feita do germem de outras flores que cresce e morre deixando as sementes espalhadas no chão, algo de novo vai nascer das inúmeras sementes deixadas pelos anos em que o B.Leza floresceu. Não será certamente o B.Leza (não há duas flores iguais), mas vai haver coisa boa. É só esperar. E para os mais destemidos, meter as mãos na terra e começar a semear no local certo a semente certa. E depois é só nutrir e gozar do aroma da nova flor... até que morra de novo.