quinta-feira, janeiro 18, 2007

Nós os assassinos

Estimado amigo

É delicado
emitir opiniões sobre o referendo que aí vem.
Não é assunto que se leve de ânimo leve.
Conheço algumas mulheres que o fizeram,
e nenhuma se mostrou contente com o facto.
Elas dirão por voz própria, se acharem conveniente,
mas no meu entender, existem questões de lei que têm de mudar.
Não faz sentido julgar as mulheres,
mas sim respeitá-las nas suas / nossas decisões,
ainda que a decisão seja filtrada e ajudada pela classe medica.
Também não faz sentido julgar santas as pessoas que defendem com unhas e dentes o contrário,
mesmo com a ajuda da santa sé, que há muito provou ser altamente eficaz noutras ocasiões.
É absolutamente desnecessário, quase culpar de quase assassinos as pessoas como eu.
Não precisamos de lições de vida sobre a importância da própria vida.
As 10 semanas são o mínimo praticado pela maior parte dos países que Portugal tenta perseguir e acompanhar.
A palavra aborto dá-me náuseas e arrepios.
Não ficarei a rir nem a festejar a vitoria da despenalização.
Mas que é preciso fazer algo não tenho dúvida nenhuma.
Uma questão jurídica que importa resolver,
mais do que a questão algo demagógica,
do sim ou não à vida.
Era o que faltava.

Por tudo isto já não consigo ouvir qualquer debate.
Já se esgotaram os argumentos.
Que se ponha a mão na consciência e que no silêncio da intimidade cada um de nós se decida.

Que se ponha fim a toda a hipocrisia que há muito reina em Portugal.

E tu meu amigo já sabes,
estamos aí pró que der e vier.

Um abraço.

20 comentários:

soniaq disse...

Eu também voto SIM! Por todas as razões.

A questão principal passa pela defesa da vida humana e esta tem que ter dignidade.
Nascer sem ser desejado, sem nenhuma possibilidade de ser amado, acarinhado e com um colo não é vida humana na minha opinião.

beijoca nessa bochecha.

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Meu caro João, não imaginas como me tranquilizou ler-te aqui. Por momentos pensei, que era a única a sentir esta dualidade de emoções em relação ao assunto. Vejo minhas amigas tão decididas. Umas, pelo sim, outras pelo não, mas decididas e seguras e eu, apesar d ever a pertinência ou melhor, a extrema necessidade de se alterar a presente Lei, tal como tu, sinto arrepios só de pronunciar a palavra aborto.

Mas tens razão. O importante é que tem que se fazer algo e acabar com a hipocrisia deste país.

O Justo é poder ser uma decisão da própria mulher. Uma decisão que apesar de nunca fácil, é sem dúvida, intima e pessoal e tem de haver liberdade para se tomar tal decisão, para se optar...é uma questão de liberdade e sobretudo de luta para que não se repitam momentos de pura humilhação como o recente julgamento das mulheres...
Obrigada por expores assim esta questão e bora lá...votar por um país mais justo, livre e honesto

A.P. disse...

Concordo com o que dizes e assino por baixo.
Há que dar a hipótese de escolha à mulher. Ela não toma uma decisão destas de ânimo leve. As que o fazem não é por causa de uma nova lei que vão passar a fazê-lo mais e as que o não fazem, não vai ser mais fácil por não ser crime. Vão é ter mais condições para o fazer.
As pessoas que defendem o Não tão convictamente são se calhar as que, se o "problema" lhes bater à porta, optam pelo Sim.
Hipocrisia, é essa a palavra-chave.

Mariana Matos disse...

Eu tb voto, claramente, sim! E assino por baixo o teu "manifesto".
:)

Tiago Costa disse...

Caro João,

esta questão, como diz, não se resolve de ânimo leve, mas eu sou completamente contra o aborto, só em casos que são permitidos legislamente (doenças, violação, problemas futuros de ambas as partes,etc).

E apoio esta minha tese com a tanta e tanta informação que me entram nos olhos diariamente sobre prevenções...

Há métodos preventivos, há informação q.b..

Não acredito que alguma mulher que aborte não conheça minimamente esses tais métodos.

Portanto, não é só fazer o filho, também é bom ter a mínima noção das coisas.

Por estas razões, sou completamente contra o aborto!

A decisão é antes, e não depois!

Mestre, um abraço!

Tiago.

Lory Boy disse...

João, sabes bem a grande admiração que tenho por ti, e também o grande respeito que sinto, mas parece-me um pouco redutivél resumir a questão a hipocrisia. Nem me parece que o facto de os outros países praticarem certos actos que Portugal tenha que os seguir. Podemos tirar grandes exemplos da Europa inteira, mas não necessitamos de copiá-la. Porque além disso temos muitas coisas que já copiámos da europa e que nada de bom nos trouxeram!Não é só porque os outros fazem que o devemos fazer!

Caro Tiago, falas muito bem!

Um Abraço e desculpa lá o... desabafo!

A. disse...

Sim,João.

_________________________SIM!

http://psicologiasdatreta.blogspot.com/2007/01/aborto.html





Obrigada.

...e obrigada à
autora deste SIM.




beijo.

A disse...

:)

Sou eu a autora acima referida.
Obrigada eu, Ana.

________________________________

Excelente carta, J.

________________________________


Dia 11, eu vou votar SIM. Porque sou a favor da Vida e considero que cada criança é um ser humano que merece nascer e crescer porque alguém a desejou. Vou votar SIM em plena consciência de que a falta de informação não cessará mas que ao menos cada mulher e cada homem deverão ser livres de decidir pelas vidas que querem colocar no Mundo. Descer de certos pedestais arreigados a valores e milagres pseudo-moralistas de Vida faria a muita gente pensar que provavelmente o Mundo evolui enquanto têm os olhos tapados perante a pobreza e os pecados dos outros. Porque os dedos que se apontam aos outros são mais fáceis de dirigir que os próprios pecados...

______________________________

Hipocrisia, essa, continuará a existir neste belo cantinho lusitano e os problemas não deixarão de existir, conquanto as pessoas não alterem mentalidades ocas e bacocas, pois fácil é manifestarmos opiniões e debatermos soluções, mas as práticas são tantas vezes incoerentes e não em consonância com o que defendemos.
Difícil é levar a bom porto ideologias e vontades.

Seja este um primeiro passo.


Beijos

AMMedeiros disse...

SIM.

Esgotados já os pseudo-debates, as acusações, as penalizações, as condenações, as opiniões e as demagogias...

Resta a reflexão de cada um. A reflexão da mulher. A reflexão do companheiro (caso exista e esteja interessado). E, sempre que possível, a decisão dos dois.

Resta a vida, mas não a vida com fome, com frio, sem conforto, sem afectos, sem família, sem vínculos, sem amor, com abandono, rejeição, violação...
Todos os dias se violam vidas que não tiveram uma com dignidade.

Um beijo

Mariana Matos disse...

É hipocrisia, sim.
Os outros fazem às "claras"; o que nós fazemos às "escuras". O mesmo será dizer que, enquanto, nos outros países o aborto está despenalizado ( e é até às 12 semanas, na maior parte dos casos); em Portugal, às "escuras" praticam-se abortos, também.
E muitos e de muitas maneiras. E os cidadãos sabem disso. Obviamente. Logo, é hipocrisia. Não vejo razão para que continuem a esgrimir esses argumentos. Não se pretende liberalizar o aborto. Mas despenalizá-lo até às 10 semanas; impedir que as mulheres vão para a cadeia por fazerem um aborto. Só se quer alterar a lei.
Uma lei para as pessoas. Da liberdade delas!
Não percebo porque continuam com esses argumentos de contraceptivos e de saber e não saber. Em que mundo vivem? Num "conto de fadas"?

Aleisa disse...

Em primeiro lugar, e parece-me a mim que ainda há pessoas a pensar que vão votar a favor ou contra o aborto, fica aqui a minha chamada de atenção, o que se pretende é a despenalização do aborto, que independetemente vença o sim ou o não, as mulheres portuguesas continuarão a abortar, caso o não tenha a maioria, as que a sua condição económica o permitir fa-lo-ão em condições dignas, as outras...
Relativamente ao ser-se contra ou a favor do aborto, isso já são contas de outro rosário, e cada um sabe de si, muito me admira são aquelas pessas que pensam como o Tiago Costa: "eu sou completamente contra o aborto, só em casos que são permitidos legislamente (doenças, violação, problemas futuros de ambas as partes,etc)." Meu caro, decida-se, ou se é contra ou se é a favor... ou vai-me dizer que uma criança deficiente ou fruto de uma violação, não é uma vida humana... Nem imagino como se deve sentir alguém que nasceu deficiente ao ler/ouvir tais comentarios, pensará:"Esta lei dos homens que dizem ser a favor da vida humana, permite que eu morra antes de nascer, o que será que eu não sou??? vida??? ou humano???"
É ridiculo não é???
Sou a favor da despenalização do aborto. Sou a favor de uma vida mais digna.

Tiago Costa disse...

Cara Aleisa, isso de haver ou não aborto: tem razão. Haverá sempre, como existirão sempre roubos, homicídios mesmo sendo ilegais e de carácter criminoso.

Mas pode-se combater isso. Mais fiscalização, fortes penalizações a quem o comete.

Quanto à questão da deficência. A questão não é ser deficiente físico pois há técnicas para melhorar a qualidade de vida desses mesmos deficientes. Agora, quando falo em deficientes, pressuponho aqueles deficientes mentais, aqueles que só são "matéria orgânica e pouco mais" que mais haverão de fazer senão dar preocupações?

A questão da violação não se pergunta à pessoa nascida, pergunta-se sim à mulher que foi violada, porque apenas foi vítima de uma acção que não iniciou.

Uma mulher que se descuida, e que engravida, aí não é um acontecimento, ela agiu, quanto muito por negligência: apesar de haver tanta informação que não acredito nisso.

Não é por aí que me podes "atacar". Podes sim à utilização da expressão "completamente contra o aborto". Mas não fora muito explícito, ou então, a Aleisa não me percebeu. Eu sou completamente contra o aborto, tirando as tais excepções, que mais uma vez, vêm confirmar a tal regra. Mas isto não são questões para um "puto de 16 anos". Apenas dei a minha opinião, com alguns argumentos que tenho à mão.

Se falei mal, ou não me expliquei bem, aí...

Cumprimentos.

Tiago.

The one you know disse...

brilhante!!!

Salomé disse...

Contra a humilhação! Voto SIM.

Maria disse...

Não obstante se tratar de uma questão proeminentemente jurídica, continua a achar que os debates demagógicos, políticos e moralistas não são esclarecedores para a maioria da população.
Tal como já foi dito, trata-se apenas de uma despenalização, de uma questão jurídica. O resto pertence ao foro da intimidade, da consciência de cada um, da liberdade de escolher fazer ou não.
O importante é saber que essa escolha é medicamente apoiada.
À parte os moralismos e hipocrisias, o argumento mais extraordinário que já foi trazido à discussão pelos movimentos do NÂO, é o custo destas intervenções para o erário público. Nem consigo comentar, envergonha-me.
Eu voto SIM, pela liberdade de escolher, pela despenalização, pela dignidade, por não impôr minha vontade a ninguém.
Hoje sorri ao ouvir o Bispo de Viseu dizer publicamente que se a pergunta fosse apenas "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas?" o seu voto seria SIM. São estas mentalidades que fazem crescer as instituições, até a Igreja Católica, que de facto, ao longo da História, sempre mostrou condenar a "pena de morte", como lhe chamam...
Só um desabafo...

Alex disse...

Surpreendeu-me a forma como todos defenderam os seus argumentos aqui neste teu desabafo sem entrarem em ofensas pessoais (tenho lido comentários bastante desagradáveis sobre este assunto).

É delicado sim, mas é como dizes, alguma coisa tem de ser feita.

A lei que visa a despenalização do aborto vai evitar que muitas crianças venham ao mundo e sejam mortas à nascença, e quando não são à nascença, são-no mais tarde durante o crescimento.

Não será razão suficiente para votarmos SIM ?

Coerente o teu texto, e directo como sempre.

Abraço João.

Alex disse...

O Bispo de Viseu levantou a tua questão: é a palavra em si, a pergunta é feita para o NÃO!

Lory Boy disse...

Desculpa lá a correcção/acrescento, não é por mal que a faço, é só para esclarecrer: o Bispo de Viseu disse que era contra o aborto. Que votaria sim se se tratasse de despenalizar a mulher, pois ninguém quer que a mulher seja penalizada, mas como se trata de legaliza-lo, ele era contra. Na opinião dele, ele acha que antes da mulher há outros culpados, como o Estado ou o homem que abandona a mulher grávida.

Megafone disse...

Bom texto. Apoiado!

daraosdedos disse...

Vou votar SIM e dou-te os parabéns pelo texto fantástico.
Um beijo
Paula